Raíza Pereira

GABRIELA CRAVO E CANELA – JORGE AMADO

Raíza dos Santos Pereira


Ilhéus: berço da política, do cacau, da desigualdade de sexos e dos amores sucumbidos. Cidade que passava por uma fase de civilização e progresso, juntamente com atitudes não tão apropriadas para esse período evolutivo.
Nessa época, o fluxo de imigração advindo dos diversos lugares para toda região era grande, fazendo com que as cidades receptoras construíssem uma sociedade diversificada, e foi assim que Nacib e Gabriela travaram uma história de amor e desentendimentos.
Nacib, um árabe vindo da Síria que desembarcou de um navio francês com quatro anos de idade no porto da Bahia, mais precisamente em Ilhéus, onde foi naturalizado por um senhor, não muito convencional – Seu Segismundo – que registrava os imigrantes sem muitas complicações, pois para ele a naturalização deveria estar ao alcance de todos. Ele não se preocupava muito com legalidade não, porque acreditava que míseros detalhes legais não mais importavam do que as crianças que viviam em meio aos tiroteios. Por isso aceitava também como pagamento, agrados materiais quando os pais não podiam pagar em DINHEIRO: causa de inúmeras injustiças da atualidade.
O árabe se criou em Ilhéus, e quando adulto se tornou dono de um bar influente na cidade – Bar Vesúvio –, porém o seu grande sonho era ser um “senhor do cacau”: cargo mais cobiçado entre todos os homens ilheenses. Nacib morava somente com sua cozinheira que a deixou sozinho com os afazeres do bar e da casa quando decidiu ir embora para uma cidadezinha do interior. Ele se desesperou, pois em Ilhéus, cozinheira era algo muito inacessível, ao menos que viesse de fora, porém iria demorar e ele precisava com urgência, devido às encomendas do bar.
Nacib era uma pessoa muito querida na cidade, apesar de tratar os seus clientes desiguais – misturava bebidas para enganar as pessoas, exceto aos coronéis e os fregueses da alta sociedade –, porém ele possuía muitos amigos e mesmo com a excitação política entre os candidatos, ele se manteve pacifico para não perder em ambos os lados, liderados por Ramiro Bastos X Mundinho Falcão.
A política de Ilhéus se resumia no coronelismo, em que Ramiro Bastos detinha o poder sobre o povo ilheense. Ramiro, um coronel de muita influência em Ilhéus, que ajudou no desenvolvimento inicial da cidade e não aceitava que nenhum outro homem se apoderasse do seu cargo, pois achava que a cidade era sua.
O governo do coronel era pacifico e não se preocupava com melhorias para a cidade, como a construção do porto de Ilhéus que futuramente ajudaria o progresso da cidade com exportação de cacau para o exterior. Os eleitores votavam nos mesmos políticos porque haviam feito algo para eles. Era uma espécie de troca de favores entre políticos e eleitores, nada diferente do que acontece na política atual.
Porém, para o desespero de Ramiro, apareceu um candidato disposto a desafiá-lo, pois mais do que prometer, Mundinho Falcão agia, mesmo contra vontade do dito “dono da cidade” ele ajudou a mudar o rumo de Ilhéus: apoiou o lançamento do jornal diário que Ramiro havia proibido devido às publicações que poderiam vir à tona nos jornais sobre o seu governo retrógrado – queriam abafar qualquer manifestação que ia de encontro com os princípios governamentais (repressão) –, mandou engenheiros iniciar as obras do porto, ajudou o progresso dos comerciantes, enfim fez tudo oposto ao governo do coronel. Com isso, Ramiro se revoltou e mandou queimar os jornais publicados, mandou matar o intendente de Itabuna que antes era seu aliado político e que agora estava do lado de Mundinho por não aceitar um governo estagnado, porém seu plano não teve sucesso, pois o homem conseguiu sobreviver.
Para “piorar” ainda mais a situação, grande parte do povo queria mudanças e melhorias para a cidade, queriam mesmo uma EVOLUÇÃO, não era porque o coronel ajudou no crescimento de Ilhéus até certo ponto que ela tinha que ficar parada no tempo. Cabeça nova para governar!
Contudo, ainda havia uma política de vantagem, egocêntrica, que se baseava na seguinte frase: ‘ Se nunca fez nada comigo para que mudar o voto mesmo quando ruim?’. Isso nos faz lembrar do pensamento atual que as pessoas tem em relação à política. Mas será que as atitudes de hoje não refletirão nas de amanhã? Pois o que as “autoridades” querem, é justamente um povo pacifico que não faz questão de assumir realmente o seu papel de cidadão.
Enquanto todos esses rumores agitavam a cidade, Nacib não desistia da sua procura incessante de uma nova cozinheira, até que soube que no “mercado dos escravos” – abrigo para retirantes que vinham à procura de trabalho em Ilhéus – poderia ter alguma menina que soubesse cozinhar.
Fugindo da seca, Gabriela, uma retirante do sertão que decidiu buscar uma nova vida em Ilhéus – cidade rica que se enriquece rápido, como dizia as noticias – parte com seu tio em caminhada, até encontrar um novo grupo retirante. Após perder o seu tio que morreu no caminho com uma forte tosse seguida de sangue, ela conhece Clemente, homem que lhe acompanha e que vive um breve romance, mas que se separam ao receber uma proposta de trabalho.
Nacib a vê toda descomposta como uma mendiga, mas sem opção, lhe propõe um emprego. Ele a leva para casa e, após um banho, percebe a beleza da garota: Gabriela, cheiro de cravo e cor de canela, mulher que viveria uma grande paixão.
Após alguns dias em sua casa, Nacib vê como a garota era prendada em tudo, principalmente na cozinha. Ele começou a se apaixonar e a temer a sua perda quando resolve se casar com ela.
Entretanto, Nacib teve diversos problemas com ela, pois Gabriela não era uma senhora da sociedade e nem queria ser. Gostava de ser livre e fazer tudo o que queria; coisas que jamais uma senhora casada poderia fazer.
A sociedade ilheense era falocêntrica, em que o homem mandava e a mulher obedecia. Elas eram submissas ao marido tendo que agüentar humilhações e mandos, sendo que o marido estava nas ruas com raparigas gastando dinheiro.
As mulheres não podiam virar doutoras, porque senão eram consideradas “descaradas”, podendo ser independentes do marido, coisa que jamais era absolvida pela sociedade, pois “para eles o direito, para elas o dever, o respeito”.
Elas sofriam diversos comentários machistas, que se baseavam na mulher Amélia: “O lar é a fortaleza da mulher virtuosa”.
Com o casamento, Gabriela não era totalmente feliz, pois tinha que assumir um papel que não fazia seu estilo: ser a senhora Saad e não simplesmente Gabriela. Não se apegava a ninguém e achava que ficar com vários homens era normal. Por que sentir ciúmes e proibi-la do que gostava de fazer? Não entendia aqueles costumes convencionais de mulher casada.
A sociedade ilheense vivia mais a vida alheia do que a suas próprias vidas. Preocupavam-se muito com os comentários do povo, inibindo-se, muitas vezes, de viverem como realmente queriam. As mulheres solteiras não podiam conversar com homens casados porque eram difamadas, além da desigualdade de voto entre mulheres, trabalhadores e coronéis, que eram quem decidiam as eleições. Elas eram proibidas de ler e de descobrirem o mundo através das palavras, pois a leitura ajuda a pensar a vida, coisa proibida para as mulheres da época.
A supremacia dos homens era tamanha que a sua honra era lavada com sangue, caso fosse traído por sua esposa, e isso repercutia em toda cidade. Até os padres não aceitavam que as irmãs fossem visitar o túmulo do homem e da mulher adúltera, pois para ele “outros os absolviam”.
Os negros trabalhavam em horas dobradas, excessivas, e em péssimas condições, sob o sol a pino nas lavouras de cacau a mando dos coronéis, que só queriam saber de lucros e mais lucros.
Como para a sociedade ilheense um homem jamais deveria perdoar uma traição, se sucedeu assim, então, a separação de Nacib e Gabriela.
Depois de ter se separado devido à traição com Tonico Bastos – maior galanteador da cidade –, Gabriela decidiu costurar não aceitando nenhuma proposta tentadora de homens, pois ela só queria reconquistar a confiança de Nacib, voltando a cozinhar para ele. Até que com a inauguração do seu restaurante, Nacib resolveu recontratar Gabriela, pois as tentativas de cozinheiros não deram certo, o que fez com que a inauguração fosse um sucesso.
Mesmo não sendo mais a senhora Saad, Gabriela vivia como gostava, livre, desfrutando a vida ao lado de Nacib sem compromissos, a não ser a de simples cozinheira. Percebendo que não havia mulher no mundo que te fizesse tão feliz quanto Gabriela, ele decidiu relembrar os velhos tempos em que lhe dava lindos presentes. Deu-lhe então, um broche de uma sereia dourada, reavivando assim o seu amor por ela. E aqui termina a história de um amor que renasce das lembranças adormecidas.
Enfim, Ilhéus alcançou a civilização e o progresso quando fez sua primeira exportação de cacau para o exterior e quando viu se fazer justiça com a prisão de um coronel por ter assassinado a sua esposa e o amante. Caso inédito em uma cidade galgada de recalques sociais!

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